Em editorial, Folha reclama expulsão de Demóstenes do DEM

Folha de S. Paulo/ Editorial

Oposição na míngua

A renúncia de Demóstenes Torres ao cargo de líder do Democratas no Senado representa um golpe em seu partido e um sintoma da fraqueza da oposição. Demóstenes Torres chegou ao Legislativo em 2002, após chefiar o Ministério Público e ser secretário da Segurança Pública em Goiás. Cercado pela fama de conservador consequente e combativo, destacou-se entre os oposicionistas.

O senador mobilizou sua experiência profissional para assumir a linha de frente em diversas investigações no Congresso Nacional. Foi assim, por exemplo, que atuou na CPI dos Correios e na dos Cartões Corporativos. Caiu-lhe bem o figurino de liderança revigoradora e aguerrida, que parecia trazer à fragilizada oposição algum alento. Ao que tudo indica, os velhos vícios da política brasileira se revelaram mais fortes que a promessa de renovação.

A Procuradoria-Geral da República abriu inquérito para apurar indícios de crime nas relações de Demóstenes com Carlos Cachoeira, preso pela Polícia Federal sob a acusação de explorar jogos ilegais. Mesmo que as investigações deixem de comprovar delitos, já pesa contra o senador o flagrante de promiscuidade com alguém da estirpe de Cachoeira, atestada na utilização de um telefone antigrampo para conversas exclusivas entre os dois. Surge, agora, a menção de seu nome em diálogos em que se negociam milhões de reais.

Diante das suspeitas levantadas, o presidente do DEM, senador José Agripino Maia (membro de tradicional família política do Rio Grande do Norte), reassumiu a liderança da sigla e admitiu a hipótese de expulsar Demóstenes Torres.

A legenda perderia um de seus principais quadros, mas essa decisão cabe apenas ao DEM. O que interessa à sociedade é a reedição de comportamentos censuráveis, algo que nunca foi exclusividade da situação nem da oposição, mas que neste caso contribui para enfraquecer ainda mais a segunda.

A existência de partidos que se opõem ao governo de turno é sinal de vitalidade democrática. Como contrapeso político, espera-se dessas siglas que vigiem o poder e constituam uma alternativa a ele.

Parte da oposição brasileira segue no rumo inverso: muitos de seus integrantes migram para o terreno fértil do governismo, outros se paralisam diante do sucesso das políticas sociais petistas, enquanto outros mais se envolvem em escândalos que minam sua autoridade para fiscalizar os feitos e malfeitos da situação.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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